domingo, fevereiro 11, 2007

pelo sim, pelo não... é melhor não dar opinião


a fotografia é de JILL GRENBERG e foi a que me pareceu mais alusiva aos abstencionistas

São 20 horas de dia 11 de Fevereiro... as sondagens e os pseudo resultados dão uma abstenção grande... que povo este que não tem coragem para assumir aquilo que pensa e que prefere deixar tudo ao acaso...

os portugueses tem aquilo que merecem... só tenho pena das almas consientes que foram votar e cujo voto ficará talvez mais uma vez sem voz activa (seja ela qual for)


Fica um texto que vale a pena ler da Rita Ferro


"Carminho & Sandra

Carminho senta-se nos bancos almofadados do BMW da mãe. Chove lá fora

Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe conduz o carro e aperta-lhe ternamente a mão. Há muito trânsito na Lapa ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de Espanha.

Sandra senta-se no banco côr-de-laranja do autocarro 22 que sai de Alcântara. Chove lá fora. Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe está sentada ao lado dela. Encosta o guarda-chuva aos pés gelados e aperta-lhe ternamente a mão. Há muito trânsito em Alcântara ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de casa de Uma Senhora.

O BMW e o autocarro 22 cruzam-se a subir a Avenida Infante Santo Carminho despe-se a tremer sem nunca conseguir estancar o choro. Veste uma bata verde. Deita-se numa marquesa. É atendida por uma médica que lhe entoa palavras doces ao ouvido, enquanto lhe afaga o cabelo. Carminho sente-se a adormecer depois de respirar mais fundo o cheiro que a máscara exala.

Chora enquanto dorme

Sandra não se despe e treme muito sem conseguir estancar o choro. Nervosa, brinca com as tranças que a mãe lhe fez de manhã na tentativa de lhe recuperar a infância.

A Senhora chega.

A mãe entrega um envelope à Senhora. A Senhora abre-o e resmunga qualquer coisa. É altura de beber um liquido verde de sabor muito ácido. O copo está sujo, pensa Sandra. Sente-se doente e sabe que vai adormecer.

Chora enquanto dorme.

Carminho acorda do seu sono induzido. Tem a mãe e a médica ao seu lado. Não sente dores no corpo mas as lágrimas não param de lhe correr cara abaixo.

Sai da clínica de rosto destapado. Sabe-lhe bem o ar fresco da manhã. É tempo de regressar a casa. Quando a placa da União Europeia surge na estrada a dizer PORTUGAL, Carminho chora convulsivamente.

Sandra não acorda.

E não acorda .

E não acorda.

A mãe geme baixinho desesperada ao seu lado. Pede à Senhora para chamar uma ambulância. A Senhora não deixa, ponha - se daqui para fora com a miúda, há uma cabine lá em baixo, livre-se de dizer a alguém que eu existo.

A mãe arrasta a Sandra inanimada escada a baixo.

Um vizinho, cansado, chama o 112 e a polícia. Sandra acorda no quarto 122 dias depois. As lágrimas cara abaixo. Não>> >poderás ter mais filhos, Sandra, disse-lhe uma médica, emocionada.

Sai do hospital de cara tapada, coberta por um lenço. Não sente o ar fresco da manhã. No bolso junto ao útero magoado, a intimação para se apresentar a um tribunal do seu país: Portugal.

Eu voto sim . Pela Sandra e pela Carminho. Pelas suas mães e avós. Por mim

Rita Ferro Rodrigues"

2 comentários:

Cristina D'Eça Leal disse...

Sabe que só deixei de ser indecisa lá para meados da campanha? Ouvi atentamente todos os argumentos, assisti a todos os debates e, a partir duma certa altura, formei a minha opinião. Quando me perguntavam se votava sim ou não, dizia "infelizmente vou votar sim". Porque o meu sim é circunstancial, tem a ver com as condições de desenvolvimento do meu país. A evolução da humanidade tem sido no sentido de proteger os mais vulneráveis, dar voz a quem não a tem. Assim tem sido com os direitos das crianças, das mulheres, dos animais. Não tenho dúvidas que chegará a altura em que o feto será objecto duma maior protecção. E eu concordo. Concordo porque defendo a vida - não só a vida humana, como muitos defensores do não, que não objectam à guerra, à caça desportiva, ao abate indiscriminado dos animais domésticos que votámos ao abandono -, não a vida duma forma abstracta, mas a vida com parâmetros mínimos de qualidade. Em termos de valores, identifico-me com alguns nãos, mas não poderia pactuar com o actual estado de coisas. Daí o meu sim. Não um sim absoluto, de festa, pelos direitos das mulheres, mas um sim condicionado à formação duma nova mentalidade, em que a educação sexual seja uma realidade para que a maternidade seja a concretização dum desejo e não uma fatalidade. Todos os meninos têm direito à vida e a serem amados.

Anónimo disse...

É fácil e até algo banal condenar os abestencionistas que são a larga maioria dos Portugueses.Mas é importante pensar nas razoes do alheamento do povo perante o caso da liberalização do aborto.Um assunto demasiado sério para ter sido "infectado" pelos partidos politicos,declaraçoes patéticas pelo SIM e pelo NAO e depois a suprema razão...claro que se trata de um negócio...já não ha que ir a espanha ou esperar que barcos abortivos passem por Portugal...os "maradouros" espanhois estão já insalados em portugal para um negócio que ronda os 9 milhoes de euros por ano.
Não ouvi uma unica vez o nome do remédio de tudo isto..AMOR com mto informação.Está legalizado o aborto,esta legalizado o consumo de dorga estão legalizados os touros de morte...falta a prostituição e o sado-masoquismo que tmb são gente.
LUSO.